Por Dentro da Cabeça dos Homens

Revista Claudia

Não é só a gente que se angustia por não saber como lidar com o companheiro em alguns momentos da vida a dois. Eles sofrem do mesmo mal. Um estudo recém concluído pela universidade de São Paulo apontou as três principais inquietações masculinas em relação a nós. Eles querem, mas nem sempre conseguem: se apaixonar intensamente, aprender a romper relacionamentos ruins e lidar bem com o dinheiro do casal.

“Os homens desejam ser conquistados pela mulher. Quando isso não ocorre ou descobrem que quem está ao lado deles não os fará felizes como imaginavam, ficam profundamente aflitos. Por dois motivos: não ter conseguido se apaixonar e não saber como terminar”, explica o psiquiatra e psicoterapeuta Luiz Cuschnir, coordenador do trabalho, em que foram avaliados grupos de dez homens a cada dois meses, nos últimos cinco anos.

Eles também alimentam sentimentos contraditórios em relação ao dinheiro. Quando pagam toda a conta, se sentem explorados; quando precisam dividir as despesas com a gente, se sentem inferiorizados.

“Entender essas inquietações masculinas pode ser o segredo para viver melhor com o parceiro”, diz Cuschnir.

Isso não quer dizer que a solução dos problemas deles esteja exclusivamente nas nossas mãos. No entanto, conhecer o que passa pela cabeça dos homens pode nos dar indícios sobre o melhor jeito de evitar e contornar situações que atrapalham as relações amorosas.

ELES QUEREM SE APAIXONAR

Um dos maiores dilemas masculinos se refere à paixão. De acordo com Cuschnir, há diversos motivos para os homens terem dificuldade de se apaixonar. Um dos principais: a mulher com quem convivem não os conquista de verdade. Eles podem se sentir realizados com a parceira no início da relação. Porém, tantas vezes essa sensação acaba se perdendo com o passar do tempo.

“Nos últimos anos, minha mulher e eu sempre chegamos em casa cansados, estressados, sem clima para namorar, dar beijo na boca, essas que a gente fazia antes e que uma delícia. Falta empolgação nossa vida, vontade de se divertir com o outro. Para mim, acabou a graça”, conta o engenheiro de 41 anos, casado há dez.

Entretanto, ao mesmo tempo em que os homens se ressentem de viver tudo sempre igual, ficam mais seguros quando sabem o que vai acontecer, ou seja, quando se rendem à rotina. Essa é mais uma ambigüidade masculina, algo difícil de se compreender pelas mulheres e até por eles mesmos, conclui Cuschnir.

Enfim como manter o parceiro apaixonado?

Muitos homens delegam a nós, mulheres, o poder de virar o jogo para incluir um pouco de criatividade na relação. Segundo os especialistas de comportamento masculino, isso ocorre porque eles se acomodam e acreditam mais na nossa capacidade de inventar novidades do que na deles. Não importa se o novo é algo mais profundo, como um bate-papo sobre rumos profissionais, ou planos para o futuro ou um simples jantarzinho à luz de velas.

“Adoro quando chego em casa e encontro algo inesperado. Pode ser uma comida especial ou vê-la usando uma lingerie sensual, dizendo que a noite é nossa”, conta comerciante de 30 anos. “Mas há também a questão da admiração.”

Segundo psicólogos, para se manter apaixonado, o homem precisa reconhecer na companheira qualidades que ele não tem. é uma forma de perceber que necessita dela para se completar e ser realmente feliz. O administrador de 30 anos, exemplifica isso:

“Minha namorada sabe me ouvir, me acalmar. Adoro estar com ela. Ela me traz paz”.

ELES NÃO CONSEGUEM ROMPER

É enorme a dificuldade dos homens de dizer “não quero mais”.

A instrumentadora cirúrgica de 40 anos, sabe bem do que estamos falando. Há poucos meses ela viu seu namoro de dois anos terminar de uma maneira que jamais imaginaria.

“Ele dizia estar apaixonado e que queria casar comigo. Um dia, avisou que iria viajar para fazer um tratamento médico e que, quando voltasse, se mudaria para minha casa. Uma semana depois, a ex-mulher dele ligou falando que os dois tinham decidido ficar juntos, que ele estava ao lado dela naquele momento e que não queria mais nada comigo. Fiquei sem chão, ainda mais por ter levado o fora de um jeito tão deprimente: a ex-mulher dele ligando.”

Quando o assunto é ruptura, eles agem de maneira diferente da nossa:

“A mulher fala o que está sentindo. O homem não. Se ele não está gostando do relacionamento, começa a agir de forma estranha e tenta se, distanciar aos poucos. Nem percebe que desse jeito vai machucar a companheira ainda mais.

Como fez o médico de 26 anos:

“Eu não sabia mais o que sentia por ela, se gostava ou se estava acomodado. Mas tinha medo de vê-Ia chorar, sofrer. Então, decidi procurá-la menos e deixar o barco correr. Até que ela acabou desmanchando. No começo, fiquei com o orgulho ferido. Depois, me senti aliviado.”

Já o empresário de 26 anos, aproveitou uma pequena discussão para colocar um ponto final em um relacionamento que estava ruim.

“Combinei de viajar com uma namorada e ela desistiu na última hora. Sei que não era motivo para terminar o namoro, mas, como eu já estava querendo fazer isso e não conseguia, acabei usando a situação a meu favor.”

A principal explicação para essa dificuldade de romper é que, em geral, os homens ficam profundamente incomodados em se ver como o vilão da história.

“Ele não quer magoar a mulher, pois se sente verdadeiramente mal com isso. Esse desejo está ligado a uma posição de eterno protetor, uma visão antiga da qual ele anda não se desligou”, esclarece Barbosa. Ele afirma que os homens precisam aprender a ser mais transparentes e sinceros nas relações amorosas. A gente pode até ajudá-los a conquistar:

“Quanto mais você mostrar que ‘aguenta ouvir o que ele tem a dizer’, sejam boas ou más notícias, mais confortável ele se sentirá para falar”, explica o psicólogo. Assim, talvez até seja possível contornar a situação antes que ela chegue mesmo ao fim.

ELES NÃO SABEM LIDAR COM O DINHEIRO

Pagar a conta inteira ou dividir com a mulher? Esse impasse ainda angustia os homens. Isso porque eles crescem ouvindo que têm de ser fortes e o dinheiro é um símbolo de força. Então, para muitos deles, não pagar a conta revela fragilidade.

“Não consigo admitir que uma mulher tire a carteira na minha frente. Fico ofendido. Até se a compra é dela tenho vontade de pagar”, diz um economista.

Por outro lado, quando arcam com todas as despesas, às vezes se consideram vítimas das mulheres.

“A gente se sente explorado. Ela tem de ajudar. Afinal, tem dinheiro para isso”, afirma um ortopedista de 30 anos. Porém, os mesmos homens que querem dividir as despesas às vezes se sentem inferiorizados por essa atitude.

“Para eles, é preciso parecer que podem pagar e que estão apenas aceitando um presente ou fazendo uma concessão”, explica Barbosa.

“Não gosto dessa história de rachar a conta e cada um dar um cheque. Quando eu pago o jantar, minha namorada paga o cinema no dia seguinte. Aí, tudo bem”, diz um administrador de empresas de 27 anos.

De acordo com o psiquiatra Cuschnir, a divisão de despesas não precisa ser igual, mas deve existir para que ninguém saia perdendo. E ele vai além:

“Podemos enxergar um significado amplo quando se fala em dividir a conta: cada um tem uma parcela de responsabilidade para que as coisas dêem certo. Dessa forma, o relacionamento sai ganhando”.

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