Inveja

Entrevista concedida ao Portal IG em março/2014

Pessoas que se alimentam da inveja dos outros, ou seja, que gostam de se sentir invejados e que acreditam que são alvos desse sentimento em diversas situações.
IG – Por que existem pessoas que se alimentam da inveja dos outros, que gostam de se sentirem invejados? É uma situação comum ou incomum?

Luiz Cuschnir – Essas pessoas podem existir sim. São os que necessitam de aprovação dos demais e dessa maneira confirmam a sua superioridade. Alias é bem mais fácil aceitar que é essa condição de ser melhor que os outros fique clara que é essa a sua necessidade. Em geral pensam que é só uma questão de saberem mais que os outros.

IG –  A inveja faz com que o invejado se sinta valorizado, reconhecido?

Luiz Cuschnir: Pode ser sentida como uma ameaça dos outros, se a pessoa não percebe que isso a alimenta. Mas pode também ser a confirmação do seu sucesso. Nem sempre chega como algo negativo, mas que vai somente confirmá-la nessa posição e não tem o objetivo de se sentir superior aos outros.

IG – Essa postura é comum as pessoas que se consideram superiores a outras?

Luiz Cuschnir: Existem os que são superiores em suas habilidades e não há como esconder isso. Podem até ter atitudes humildes mas a superioridade específica lhes dá um lugar de destaque. Tomá-la como instrumento de humilhação de outros é que mostra um desvio de excesso de vaidade e desconsideração. Muitas vezes á uma confusão na hierarquia onde uma posição superior indicaria sentir-se melhor que os demais e não o que têm mais condições para exercer essa posição.

IG – Qual é o limite para que esse sentimento não se torne prejudicial? O que ele pode acabar causando na vida da pessoa que gosta de ser invejada? Existe algum risco?

Luiz Cuschnir: O prejudicial sempre resvala na rejeição que pode também causar. Ser invejado implica também em recolher desejos negativos como revolta, desconsideração, comentários desairosos, “torcida contra” etc. Sempre serão pessoas que se destacam e ocupam lugar almejado pelos outros. Mas há o que chamam popularmente de “inveja branca”, que é o aplauso do outro sem o desejo que ele encontre algo negativo que mostre a sua fragilidade. É quase uma torcida a favor pois vem junto com carinho e respeito.

IG – Isso tem alguma relação com a cultura do Brasil? Por que existem tantos rituais aqui para “acabar” com a inveja?

Luiz Cuschnir: Há várias culturas que têm rituais ou atitudes relacionadas a inveja. Nos povos do Ocidente há imagens populares específicas para “proteger” as pessoas da inveja. No Japão há dizeres que penduram em bandeirinhas para isso. Nos povos do Oriente Médio há um “olho”, às vezes dentro de uma mão, que “devolve” o que vêm de maus pensamentos a pessoa que o usa. Inclusive em certos grupos há uma resposta com a mão quando se recebe um elogio que tem a função de, sem falar, ser para devolver algum desejo negativo de quem o faz. No Brasil primitivo, índios e negros trouxeram rituais que também servem para esse fim.

IG – Por que ninguém gosta de assumir que inveja alguém, mas gosta de dizer que é invejado?

Luiz Cuschnir: Inveja é tida como um dos “pecados originais”. De certa maneira também está entre as proibições dos dez mandamentos de Moisés. Admiti-la é como se o fizesse em relação a Deus e assim passível de castigo. Também mostra claramente como se julga inferior ao outro, sem os mesmos atributos e desejos negativos em relação ao invejado.

IG – Esse é um sentimento mais recorrente entre as mulheres do que nos homens? Por quê?

Luiz Cuschnir: Entre as mulheres muitas vezes a inveja aparece a partir dos atributos físicos que a outra tem ou da sua vida afetiva. Nos meus livros sobre as mulheres (A Mulher e seus Segredos – Desvendando o mapa da alma feminina (Ed. Larousse) e Quando Mulheres Poderosas se Tornam Mulheres Conquistadoras (Ed. Academia- Planeta) falo sobre o que mais as incomoda. Seja do ponto de vista físico pode ser a altura, peso, tamanho do busto ou nádegas. Tudo é passível de inveja. Quanto à vida afetiva é relacionada ao que a mulher conquistou na relação com o homem ou da sua família. As cobranças impostas a ela pela sociedade a fazem almejar ser mais do que é. Os homens tem suas cobranças e sentimentos de inferioridade mas tendem a voltarem mais para as sensações, muitas vezes reprimidas verbalmente, onde se veem como inferiores atingindo a si mesmos, alimentam sua baixa auto estima.

IG – As redes sociais, como Facebook e Instragam, acabam funcionando como uma ferramenta para a pessoa que gosta de ser invejada?

Luiz Cuschnir: Sim, pode ser, mas não vejo como sendo utilizada para isso. A necessidade de se conectar com muitas pessoas ao mesmo tempo e compartilhar esse sucesso (no caso que estamos falando) pode ter esse intuito somente. É comum que as pessoas invejosas sejam atingidas por não aguentarem o sucesso das outras. Quem ganha, e não tem medo de parecer vitorioso ou quer compartilhar isso, vai usar sem essa finalidade. Como é de largo alcance, pode implicar em dividir com muita gente, e que entre essa há alguma que deseja atingir dessa maneira provocando inveja.

IG – Como isso funciona no ambiente de trabalho? Acaba sendo uma postura arrogante entre os demais?

Luiz Cuschnir: Se o seu plano é esse, em geral está ligado ao poder e conquista de autoridade ou função. Hoje com a valorização do relacionamento em equipe além da eficiência profissional, essa postura arrogante ou autoritária é mal vista e ela perde pontos para o que deseja. O arrogante humilha os demais, diferentemente do que é humilde que se posiciona sem precisar diminuir os outros.

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