DEPRESSÃO NO CASAL

Entrevista a UOL – Mulher (Heloísa Noronha)

UOL – Depressão de um dos componentes do casal pode afetar o relacionamento? De que forma?

Uma relação de casamento necessita de alimento afetivo para se desenvolver. Precisa haver uma troca constante de elementos vitais para dali surgirem um sentido de estarem juntos construindo uma vida que traga satisfação a ambos. Uma pessoa deprimida tende a se desinteressar pelo que está a sua volta, é pouco criativa, tem um humor afetado pela depressão, com grande dificuldade de realizar essas trocas. Fica muito dependente de receber e dá muito pouco.

UOL – O que o par do(a) parceiro(a) deprimido(a) pode fazer para ajudar? 

Estar junto, companhia é o mais importante para uma pessoa deprimida. Estar sozinha trás sentimentos enormes de desesperança e menos valia. Em geral estas pessoas se isolam do mundo e dependem exclusivamente desse parceiro que em geral inspira mais confiança ou provê mais suporte, mesmo que seja insuficiente para tratar, se o quadro é realmente importante. Em geral a pessoa deprimida tem áreas da vida que se sentem melhor. Isso pode ser programas, atividades, relacionamentos, como se fossem “ilhas de melhora”. Este pode ser um caminho para procurar. E o mais importante é ajuda-la a procurar um profissional e principalmente acoplar a possibilidade de ser medicada e ter um atendimento psicoterapêutico que seja continente desse quadro.

UOL – E o que não deve fazer?

O oposto, situações que provocam um grande incômodo, só desgastam e não ajudam. Expô-la socialmente ou até publicamente pode constrange-la e criar mais sentimentos de menos valia. Para certas pessoas, trazer para perto outras pessoas mais queridas como filhos, parentes ou amigos, criam um ambiente afetivo e seguro, ajudando a passar por isso. Se ela não consegue ir sozinha a um terapeuta, ajudá-la, ou até acompanha-la, até que se estabeleça um vínculo e um acesso mais fácil dela receber ajuda profissional.

UOL – O que a pessoa deprimida deve fazer para lidar com a doença na relação?

Primeiro perceber que está deprimida. Isso parece óbvio mas mesmo pessoas que já sabem que têm essa tendência, entram em quadros onde ainda não está tão evidente e já passaram um tempo onde se tivessem recebido ajuda não sofreriam nem causariam tantos danos pois mesmo as depressões mais leves causam transtornos no dia a dia que trazem muitos prejuízos.

UOL – É verdade que homens e mulheres reagem de forma diferente à depressão? Por quê? Isso pode criar conflitos na relação?

Os homens tendem a segurar e disfarçar mais. Mulheres podem expor com mais facilidade, apresentarem modulações de humor mais evidentes. Homens podem se isolar socialmente, falarem menos, tornarem-se mais silenciosos ou até exagerarem no trabalho ou atividades físicas. Elas podem tornarem-se mais lentas, distraídas, menos pro ativas. É claro que vai depender das características da personalidade e estilo de cada um. Como provocam dissonâncias na relação que tinha um percurso e sofre essa interferência, podem trazer conflitos já que o deprimido não consegue acompanhar o ritmo do casal.

UOL – Quem apresenta um episódio depressivo, mesmo que o trate, existe uma porcentagem de chances de sofrer outra crise ao longo da vida. Ou seja, a depressão não tem cura, apenas fica controlada, certo? Então, como casal pode lidar com essa perspectiva?

Um diagnóstico de depressão leve um certo tempo para ser feito. Não é um primeiro episódio que se consegue ter uma noção do seu percurso. Uma história mais antiga, com descrições bem precisas, podem indicar mais claramente se é ou não o primeiro episódio na vida desta pessoa. O acompanhamento é que vai dar essa perspectiva. Há quadros em que a psicoterapia cuida para que o quadro não se agrave. A medicação deve estar a disposição conforme os danos já estejam evidentes na vida da pessoa. Já atendi aqueles que não conseguiam tomar medicações e precisavam de um trabalho psicoterapêutico intenso e profundo para ultrapassar a fase. Outras vezes, só a psicoterapia é insuficiente, inclusive pode ser inócua se a pessoa não consegue nem absorver resultados que ela oferece. Precisa mesmo ser medicada e quando sai do quadro, diminui a medicação até suprimi-la totalmente. Uma terapia pode protege-la ou distanciá-la de novas crises depressivas. Pessoas com o perfil depressivo em geral necessitam sempre de terapia, mesmo fora de crises. Isso não quer dizer que serão pessoas incapazes de realizações na vida, muito pelo contrário. Sempre tive pacientes com esse perfil que realizaram sua vida com uma imensa criatividade e sucesso em uma ou várias áreas da vida.

 

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