Como chegar a meia-idade sem crise

Revista Mais Bases – 07/2013

A forma como cada pessoa reage à passagem do tempo depende de como ela cuida do seu corpo e da sua mente

Há uma determinada fase da vida em que homens e mulheres começam a perceber a passagem do tempo no corpo e na mente. Sentem que muitas ambições que tinham na juventude não foram realizadas e que a idade atual já não lhes permitirá realizar algumas delas. É como se a pessoa percebesse que não somente a vida tem um fim, mas que mais da metade da vida já se passou. Sente uma insatisfação com os rumos que a vida tomou, com as escolhas que fez e um certo medo do futuro, da velhice. Eis então que bate à porta a famosa crise da meia-idade.

O termo crise da meia-idade é usado para descrever um período de intensa insegurança sentida por algumas pessoas quando ingressam na segunda metade da vida adulta, entre os 40 e 60 anos. O ponto de partida para a crise seria a tomada de consciência da passagem da própria juventude e da iminência da velhice e da morte.

A crise da meia-idade surge em um momento de aparente estabilidade. Na grande maioria das vezes, a pessoa já acumulou conquistas profissionais, formou a família, adquiriu patrimônio. Nesta etapa da vida, tendo sido satisfeitas essas necessidades, é comum fazer uma revisão da própria vida, crenças, atitudes e valores. Diante desses pensamentos, questionamentos do tipo “o que fiz da minha vida” surgem juntamente com sinais mais evidentes de envelhecimento, como os fios de cabelo branco e a perda do vigor físico. Tudo isso, associado à pressão da sociedade pela juventude eterna e culto à beleza, podem fazer com que algumas pessoas se sintam mais melancólicas, entristecidas e angustiadas ou adotem comportamentos diferentes daqueles habituais.

Segundo Luiz Cuschnir, psiquiatra e responsável pelo Centro de Estudos da identidade do Homem e da Mulher, assim como a adolescência, a meia-idade é um período cheio de conflitos. Tal como o adolescente se interroga sobre o seu objetivo na vida, o adulto de meia-idade também se interroga frequentemente sobre o sentido da existência.

“A crise identifica uma passagem tumultuosa, do ponto de vista emocional, que pode ou não ter agregado instâncias físicas. Posso identifi cá-la como uma fase semelhante à adolescência, onde valores e posturas sofrem alterações importantes levando a mudanças de atitude e fenômenos psicológicos distintos do que ocorria até então”, explica.

Processos de ruptura típicos dessa faixa etária, como a morte de um parente, uma mudança no trabalho, perda do emprego ou a dissolução do casamento também podem favorecer a crise da meia-idade. E o resultado desses momentos críticos pode ser um desejo urgente de fazer mudanças significativas em aspectos essenciais da vida como na carreira, aparência, relações afetivas e outros.

Na ânsia de conter a angústia dessa fase, algumas pessoas passam a tomar atitudes que podem causar estranheza para a família como, por exemplo, mudar abruptamente de emprego, passar um tempo exagerado cuidando da aparência, realizar algum sonho de consumo de quando tinha 20 anos de idade, buscar relacionamentos com pessoas bem mais jovens ou ter comportamentos característicos da juventude.

“Elencaria distanciamento social, atitudes extremadas de comportamento, como experimentarem desmesuradamente coisas novas, desequilíbrio nos relacionamentos afetivos, familiares e profi ssionais, quadros psicológicos e psiquiátricos etc”, acrescenta o psiquiatra.

HOMENS E MULHERES

Do ponto de vista físico, a crise tende a ser mais difícil para as mulheres. Um dos principais fatores é a menopausa. Por volta dos 50 anos, os ovários param de produzir estrógeno, hormônio ligado à fertilidade e ao ciclo menstrual. Essa escassez resulta em sintomas fisiológicos (pele seca, facilidade em ganhar peso, arritmia cardíaca, suores noturnos etc) e psíquicos (mudanças súbitas de humor e depressão).

A mudança hormonal masculina, consequência da andropausa, está longe de ser tão marcante quanto a menopausa. A partir de certa altura da vida, que pode variar dos 30 aos 40 anos, os hormônios vão baixando e continuam diminuindo lenta e progressivamente até os 80 aos 90 anos. Ou seja, nem todos os homens apresentam níveis hormonais sufi cientemente baixos para causar problemas, mas isso não significa que eles estão imunes ao turbilhão de emoções que afetam as pessoas de meia-idade.

Mas será que homens e mulheres reagem diferente à crise? Para Dr. Luiz, a reação dependerá da estrutura psicológica da pessoa, mas em geral, a valorização do homem está mais ligada ao trabalho do que a da mulher.

“São aspectos profissionais que mais afetariam homens, além das difi culdades físicas, principalmente as sexuais, que podem atingi-los e causarem distúrbios que os levariam a crises. Já a mulher pode se ressentir muito com a presença de sinais físicos que advém da menopausa ou mesmo do envelhecimento do ponto de vista estético”, explica.

Além dos que efetivamente vivenciam essa fase, os familiares e as outras pessoas próximas também são afetados. Daí a importância de as mudanças e os desafios que chegam nessa fase serem entendidos não apenas pelos que alcançaram essa idade e têm de lidar com seus efeitos, mas também pelos outros, para que possam compreender e apoiar os que se veem nesse estágio da vida.

NOVAS OPORTUNIDADES

A ciência comprova que a crise da meia-idade não é só uma sensação. Ela mexe com a vida de milhares de pessoas, mas especialistas afi rmam que a crise pode ser uma oportunidade de recomeçar. Nem todos passarão pela meia-idade com crise. O estilo de vida de uma pessoa pode contribuir para uma vivência mais satisfatória das várias fases da vida adulta. A meia-idade não é necessariamente um momento gerador de transtornos psicológicos capazes de desestabilizar alguém.

Os grandes conflitos que acometem muitos pessoas nesse período são causados pela falta de preparo ao longo da existência para o encontro consigo mesmo na segunda metade da vida.

“Pessoas que têm em mente que se cuidar implica em olharpara si, tanto fi sicamente como sicologicamente, que se desenvolvam como pessoas bio psico sócio e espiritualmente saudáveis, terão a chance de lidar melhor com as dificuldades que possam advir”, avalia Dr. Luiz.

A aumento da expectativa de vida nas últimas décadas também contribuem para que as pessoas mudem sua ideia de que esta fase seja algo ruim.Prova disso é que hoje as pessoas dessa faixa etária estão mais preocupadas com a saúde e a qualidade de vida. Após décadas de sedentarismo, passaram a dar mais importância a alimentação e a forma física.

“Por terem mais acesso a vivências que poderiam ser vetadas a partir de uma certa idade, as possibilidades de se sentirem ainda pertencendo e participando da vida ativa, faz com que as pessoas lidem melhor com isso” analisa o psicanalista.

Ao chegarem à meia-idade, as pessoas precisam perceber que já cumpriram muitas funções, mas ainda tem muitos anos pela frente. É tempo de colher os frutos. Há ainda muitas possibilidades de escolhas. Que tal fazer aquele curso ou aquela viagem que vem sendo adiada há tantos anos? Sempre é tempo de buscar alternativas e criar novos projetos, com mais paciência, tolerância, maturidade e com aquela experiência que só se adquire com o passar dos anos.

DICAS

  • Desenvolva metas e vá atrás de objetivos que sejam realmente importantes para você.
  • Pense mais em você. Considere o que você mais preza e as suas qualidades e deixe de lado o que os outros esperavam de você.
  • Não tenha medo de superar obstáculos ao realizar novas mudanças em sua vida. Vale muito a pena investir em novas possibilidades.
  • Cultive as novas e antigas amizades. As pessoas que te conhecem melhor poderão te apoiar em novos rumos.
  • Reveja seus valores. Preste mais atenção em tudo aquilo que ganhou recentemente – e pense menos no que perdeu.
  • Mantenha a atividade do corpo, com exercícios, e da cabeça, com leituras e outros passatempos.

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